300 Paraquedistas

Olhei no altímetro e li 12.500 pés. Essa é a altura que normalmente saímos do avião em saltos comuns, mas no 300-way, a essa altura já tínhamos 104 paraquedistas na formação. Estávamos em queda-livre a 40 segundos desde a saída do avião. Tínhamos mais 30 segundos para que outros quase 200 “wackers” (linhas dos anéis externos da formação) completassem a formação. Olhei para frente e vi um mar de paraquedistas, um monte de gente na formação e mais um tanto se aproximando de todos os lados. O céu, atrás da formação, estava azul claro, sem uma nuvem. Assim é o céu do Arizona. O ar estava gelado, mas a emoção era tão grande, que eu nem sentia frio. No dia anterior havíamos saído do avião com uma temperatura de 35 graus abaixo de zero.

 

Logo que entrei na minha posição procurei estabelecer contato visual com o outro lado da formação, mas estava difícil. Eram muitos paraquedistas entre eu e Derek Tomas, que ficava no lado oposto, na mesma posição que eu ocupava. A formação estava parada, estável como eu nunca havia visto antes num salto grande como este. Tudo parecia muito calmo, sugerindo que as coisas também estavam indo bem nos outros setores da formação. Usei a visão periférica para checar se o meu lado direito e o meu lado esquerdo estavam formados. Aparentemente, estavam. Será que havíamos quebrado o recorde?

 

George Jicha, que estava na base de quatro, bem no centro da formação, era o responsável por acionar o paraquedas no meio da formação para sinalizar o momento do início da separação. George também achou que a formação estava pronta e resolveu nos dar mais alguns segundos para garantir o recorde, por isso, demorou um pouco mais para abrir seu paraquedas. Como a lei de Murphy é implacável, seu pilotinho hesitou e ele ficou mais alguns segundos em tow, com a bridle esticada, sem conseguir extrair o pino que abre o container, atrasando o início da separação. Fiquei tenso e chequei o altímetro. Quando chegou a minha vez de me afastar da formação, eu já estava 1.200 pés abaixo da altura prevista.

 

O espaço aéreo, que nos saltos anteriores costumava ser somente meu, naquele momento estava totalmente congestionado. Dei um track máximo, procurando me afastar da formação em busca de um espaço vazio para abrir o paraquedas. Tinha gente por todos os lados, acima e abaixo. Minha altura prevista para abertura do paraquedas era 2.600 pés, a qual eu respeitara criteriosamente em todos os saltos anteriores. Decidi esticar o track por mais três segundos, sinalizei e comandei. Meu paraquedas girou 90 graus na abertura e vi um velame preto ainda em fase de abertura e vindo em rota de colisão. Não tive tempo de fazer nada. O outro paraquedista só teve tempo de acenar e passou a dez metros de mim. Nunca fiquei sabendo quem era o cara.

 

Pousei de vento de cauda no meio do deserto do Arizona. Desviei de um cacto e corri o mais que pude, num esforço para ficar em pé. No 300-way, todos pousavam na direção que era determinada no briefing antes do salto, mesmo que a direção do vento mudasse. Estava a mais de um quilômetro de distância da área. Até então eu ainda não sabia se havíamos quebrado o recorde. Recolhi o paraquedas enquanto uma das peruas de resgate se aproximava. Esse era o terceiro salto do dia. Olhei no relógio: 14:45 do dia 12 de Dezembro. Lembrei que foi no dia 12 de Dezembro de 1971 que realizei o meu primeiro salto. Pensei que seria um grande presente se pudesse bater o recorde nesse dia. Logo que embarquei no veículo de resgate, ouvi os comentários do pessoal que estava a bordo e fiquei chateado. Um dos wackers que ficava do outro lado da formação estava incompleto. Não havia sido dessa vez.

 

Deixei o meu paraquedas com a Georgy, minha dobradora, e voltei para o hangar. Na nossa tenda, assisti ao vídeo e fiz o debriefing com o meu time. Meu grupo, o setor branco da base, havia feito um bom trabalho. Havíamos fechado o nosso setor dentro da nossa meta, bem abaixo de 40 segundos. No salto inteiro, só quatro paraquedistas haviam ficado de fora. Logo em seguida, fui à reunião dos capitães, onde decidimos que iríamos embarcar novamente em 45 minutos e que o próximo salto seria o salto do recorde. Sentia-me honrado de ser um dos 12 team captains, junto com os maiores especialistas do mundo em grandes formações. Meu papel era fazer o setor branco da base funcionar. O meu trabalho não era fácil, afinal de contas, tinha que comandar paraquedistas com muita experiência, entre eles, vários campeões mundiais. Neal Houston, meu co-captain é campeão mundial e um dos membros do Arizona Airspeed. Além do Neal, vários paraquedistas campeões mundiais, representantes dos Golden Knights, da Rússia  e competidores de primeira linha de mais de 10 países do mundo.

 

Seis dias antes disso, nos primeiros saltos, havíamos feito tentativas de fechar a base de 104. O meu setor teve problemas sérios e, comparado com os outros, ficou bem aquém. Discuti com Neal Houston sobre por que não estávamos indo bem. Seria hipóxia? Seria velocidade de queda? No segundo dia, substitui três paraquedistas da linha que ficava logo após a base. Fizemos 3 saltos, todos apenas com o objetivo de fechar a base de 104. De uma forma espetacular, resolvemos nossos problemas e passamos a fazer os melhores saltos entre os grupos da base. No último salto do dia fomos quase perfeitos, com uma base de 104, rápida e estável, pronta para receber os 196 wackers. Nesse dia consegui ganhar a confiança do meu time e os “macacões brancos” da base passaram a ser respeitados pela sua velocidade, solidez e consistência.

 

Olhei para o relógio novamente. Já passava das 15h40m do dia 12. Indo para o lado de fora do hangar encontrei com o Breno. Nos primeiros dias, ele havia começado a saltar no Alpha Team, que era o banco de reservas, já que a ideia lá era ter paraquedistas de alto nível técnico para poder fazer substituições em qualquer posição que se fizesse necessário. Breno assumiu a liderança do Alpha Team e passou a brifar e debrifar os saltos, mas logo foi chamado para o 300-way. Trocamos ideia sobre o último salto, e ele me disse que a razão de queda (velocidade em que a formação estava caindo), estava boa e que a base de 104 parecia bem sólida, do ponto de vista das linhas que formam os wackers.

Fiquei aguardando o grupo se reunir para o briefing do último salto do dia. Sentei sob o sol da tarde do inverno do Arizona e comecei a recordar. Breno e eu havíamos chegado uma semana antes ao Arizona para nos aclimatar ao clima frio e seco. Fizemos saltos de ambientação,  compramos roupas de frio e procuramos uma academia de ginástica. A obsessão do Breno por ginástica e alimentação era grande. Ele dizia que tínhamos de estar bem preparados. No fundo, ele tinha razão, pois numa entrevista na CNN, Mary Ellen Weber, astronauta da NASA que já foi várias vezes para o espaço e que fazia parte do 300-way, disse que quebrar esse recorde era mais complexo do que participar de uma missão espacial. O próprio Jack Jefferies, que também é alpinista, comparou o 300-way com a conquista do Everest.

 

Os outros brasileiros que estavam participando das tentativas de recorde, além do Breno, eram a Márcia e a Juliana Sé, que estava inscrita pela Áustria. O Humberto (Dois) era um dos cameramen que estavam produzindo as imagens do evento, sob o comando de Mike McGowan. A Márcia estava saltando no setor número 4, cujo capitão era o Guy Manos.

 

Eu havia acordado as 5hs para poder alongar, tomar um banho quente e chegar as 6hs na reunião matinal dos team captains no hotel Holiday Inn para tratar de aspectos técnicos e substituições. A reunião terminou as 7hs, conforme planejado.  Fomos para a área de salto e fiz um briefing com o meu time. Havíamos combinado que, se ondas se formassem no salto, todos iriam brigar com elas, para tentar anular o seu efeito devastador. Comuniquei essa determinação ao time.

 

Fizemos um briefing rápido para mostrar aos paraquedistas do Alpha Team que estavam se juntando a nós naquele salto a posição de cada um. Os times deram seus gritos de guerra e nos deslocamos para o embarque. Observar aquele batalhão  embarcando em 14 aviões era emocionante.

 

Não havia co-piloto. O piloto tinha que cuidar de tudo, desde o voo em formação até o oxigênio e a comunicação interna. Os 14 aviões decolavam ao mesmo tempo, usando inclusive a pista de táxi. Tudo isso com a FAA (Federal Aviation Administration) presente. A 9.000 pés checamos os equipamentos e, a 12.000 pés, começamos a respirar oxigênio. Quarenta minutos depois estávamos na reta final. O piloto virou para trás e gritou “one minute”. Nos levantamos e ficamos preparados. A luz verde acendeu e os floaters se posicionaram.

 

Quando sai do avião, ainda estava de ponta-cabeça quando olhei rapidamente para a minha esquerda para procurar Slocum, o paraquedista que estava saindo do outro avião e quem eu deveria seguir. Em seguida chequei a localização da base. Entrei num dive e mergulhei. Por alguns segundos perdi o contato visual com a base e com o paraquedista que eu deveria seguir. Sabia que o seu macacão era branco e tinha o nome Perris Valley bordado em vermelho na parte traseira da coxa. Sai do dive e senti que a velocidade ainda era grande e me assustei. Achei Slocum enquanto tentava frear e senti que estava escorregando para o lado do setor vermelho. Fiz um esforço para corrigir a rota e me aproximei do meu slot.

 

Entrei na formação e percebi que havia uma pequena onda se formando no lado esquerdo, no setor vermelho. Aqueles segundos de queda-livre se passaram lentamente. Sacudi a cabeça para autorizar a entrada dos wackers, pois a minha função era de âncora, ou seja, o ponto de ligação da base com as linhas que entravam por último na formação. Apesar do salto estar bastante estável, não podíamos descuidar. O recorde tinha que sair e tinha que ser nesse salto.

 

Naquele momento eu tinha certeza que teríamos o nosso recorde. A figura estava pronta e era nossa. Vi o pilotinho do George Jicha subir e o seu corpo ser extraído da formação. Quatro segundos depois foi vez do Adams acionar o paraquedas e autorizar o tracking team “B” a ir embora da formação. Iniciei o meu track. Tive vontade de acelerar desde a separação, mas me disciplinei e segui o meu tracking leader. Depois de 7 segundos estava liberado e acelerei tudo o que pude. Olhei para os lados, para baixo e para cima e, dessa vez, estava sozinho. Nem parecia que estava separando um 300-way.  Chequei o altímetro e li 4.000 pés. Lá embaixo, o deserto do Arizona. Tudo parecia grande demais. Chequei o altímetro novamente: 3.500 pés. Não é possível, estou baixo demais, vendo os postes e até o fio entre os postes, pensei. Devo estar com hipóxia e devo estar quase chegando no chão. Mas o chão estava parado, lá embaixo, não estava aumentando de tamanho. Saltar sobre o deserto é assim mesmo, a gente tem a impressão que tudo é grande demais. Abri o paraquedas e virei para a área. Vi o sol quase no horizonte.

 

Pousei e fui abraçado por um paraquedista com macacão azul que nem falava inglês. Ele também já tinha sentido que havíamos quebrado o recorde nesse salto. Ninguém veio nos buscar. Corremos mais de 500 metros até o gramado onde os 300 paraquedistas recordistas foram se reunindo e se abraçando de alegria.

 

Quando chegamos ao hangar a festa começou. Foi tudo muito natural. Reuni o nosso time e Alexander, da Rússia, puxou uma garrafa de vodka e fez eu dar um gole. A música rolava e todos dançavam. A emoção era muito grande, mais de 500 pessoas estavam no hangar. Aguardamos a decisão dos árbitros. Quando a comunicação oficial chegou, beijei a bandeira brasileira. O sucesso histórico de organizar e realizar o 300-way deveria ter sido brasileiro, em solo brasileiro. Não foi, mas o Brasil foi ao Arizona e carimbou o Guiness Book. Viva o 300-way, o número mágico, o mito. Viva o paraquedismo brasileiro, viva o Brasil!

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