COLISÕES DE VELAME NO PARAQUEDISMO: PREVENÇÃO E COMO PROCEDER

COLISÕES DE VELAME: COMO EVITAR E COMO PROCEDER NUMA EMERGÊNCIA.

Artigo escrito por Ricardo Pettená

Colisões de velame são experiências traumáticas, por isso temos que evitá-las a todo custo. Entretanto, se uma colisão acontecer, saiba o que fazer.

Neste artigo vou discorrer sobre as colisões de velame e fazer recomendações sobre quando desconectar, quem desconecta primeiro, quando ficamos e mandamos mais pano. Também vou abordar a importância da comunicação e como ela deve ser feita.

Colisão com outro paraquedista com o velame pode ser uma das piores emergências, especialmente se estiverem à baixa altura. Evitar colisões deve ser uma preocupação constante durante todas as fases do salto depois da abertura. Para isso, existem alguns hábitos a serem desenvolvidos.

É FUNDAMENTAL A MANUTENÇÃO DO CONTATO VISUAL COM OUTROS PARAQUEDISTAS O TEMPO TODO, DESDE A ABERTURA ATÉ O POUSO.

Desde o momento do acionamento (comando) da abertura, mantenha-se olhando para frente e de rápidas olhadas para o velame que está em fase de abertura depois que ele sair da bolsa, mas volte a olhar para frente.

Durante toda a navegação procure velames ao ser redor, abaixo e acima. Sempre olhe antes de fazer uma curva, e sinalize com as pernas quando avistar outro paraquedista. Se ele responder, é sinal que está te vendo. Caso contrário, fique atento, se afaste ou mude de nível.

Mesmo depois do pouso, tome o cuidado de recolher o velame de frente para quem está na final. Só baixe a guarda quando estiver dentro do hangar.

Tem alturas que as chances de colisões são maiores. É importante saber como se comportar em cada uma dessas alturas e o que fazer para evitar.

Quais são os motivos que indicam maior risco de colisão durante e após a abertura, e depois no circuito de aproximação para o pouso?

Na abertura são os seguintes: 1- separação do salto em grupo sem critérios, sem planejamento, por imperícia ou negligência; 2- aberturas fora do eixo; 3- panes; 4- twists.

Mas não é só isso. Também podem colaborar para uma colisão durante ou logo após a abertura, a divisão dos grupos no embarque, o pouco distanciamento na saída, desrespeito à altura combinada de abertura e falta de habilidade.

No circuito de aproximação para o pouso, aumentam as chances de colisão devido a: aglomeração de paraquedistas na chegada, a falta de contato visual, paraquedistas que não respeitam o circuito, mudanças de direção e intensidade do vento.

SEPARAÇÃO VERTICAL

A Separação vertical é Importantíssima. Tente evitar de ficar no mesmo nível que outros paraquedistas. Se você é leve e tem um velame relativamente grande, quando estiver no mesmo nível que outro, freie para flutuar. Se você for mais pesado e tem um velame relativamente pequeno, deixe o velame passar para baixo simplesmente ficando em voo total, ou puxando os tirantes da frente.

EM ROTA DE COLISÃO

Se um velame estiver vindo na sua direção em rota de colisão, faça uma curva de 90 graus à direita. Caso estejam ambos convergindo para um ponto de colisão à frente, faça uma curva desviando para fora.

COLIDINDO

Durante muitos anos se ensinou a abrir braços e pernas no momento da colisão para que o paraquedista não atravesse por dentro das linhas do outro.

No entanto, essas instruções foram feitas pelos paraquedistas militares para saltos de tropas usando paraquedas redondos, que são lentos e tem muitas linhas. Essas orientações foram passadas para o paraquedismo esportivo ainda no tempo dos redondos (anos 1960 e 1970).

Os tempos mudaram. Hoje os paraquedas se deslocam horizontalmente a velocidades que ultrapassam em muito os 100 km/h quando estão voando em sentidos opostos.

Enfrentar uma colisão com braços e pernas abertas é o mesmo que entrar numa briga com a guarda baixa e as pernas abertas, é pedir para receber um golpe entre as pernas e na cara. Ou pior.

Quando eu morava em Deland, uma paraquedista italiana foi atingida na cabeça pelo joelho do outro paraquedista. As lesões que sofreu foram irreversíveis.

Minha recomendação é fazer uma posição pequena, do tipo bolinha, para se proteger e oferecer a lateral, pois não serão as pernas abertas que irão evitar de alguém atravessar as linhas de outro paraquedas numa colisão em grande velocidade.

Proteja pescoço, braços, pernas, e ofereça a lateral do corpo. Isto se der tempo, pois tudo acontece muito rápido.

Aqui está outro motivo para se fechar numa posição de proteção: é que esta (posição fetal) é a reação natural e involuntária do nosso corpo diante de um impacto.

DEPOIS DA COLISÃO, SE ESTIVER EMBRULHADO OU ENTRELAÇADO

Como eu afirmei anteriormente, o primeiro passo é tentar se comunicar com o outro paraquedista e decidir de comum acordo o que irão fazer. Isto, considerando que estejam acima de 1000 pés.

COMUNICAÇÃO

A comunicação deve ser imediata e positiva. O que eu quero dizer com ‘positiva’, é que devemos falar para o outro apenas aquilo que queremos que ele faça: “fique aí”, “mantenha”, “segura mais um pouco”, “olha a altura. O ‘não’ pode não ser audível e o colega eventualmente fará exatamente aquilo que você não quer que ele faça. Exemplo: dizer para ‘não desconectar’ pode ser ouvida como ‘desconectar’.

ABAIXO DE 1000 PÉS

Abaixo dessa altura, se recomenda que fiquem os dois juntos até o pouso ou impacto, enfrentando juntos a emergência. Nessa situação sugere-se ‘mandar mais pano’, ou seja, ambos comandam o reserva sem desconectar.

Quando a colisão ocorre próximo ao solo não dá tempo de fazer nada. A única tentativa que pode amenizar é puxar o punho do reserva para ganhar mais arrasto (tentar diminuir a velocidade da queda).

Colisões próximas do solo tem que ser evitadas a todo custo.

COLISÕES ACIMA DE 1000 PÉS

Apenas reforçando, ao colidir e se embrulhar no tecido ou se embaraçar nas linhas do outro paraquedas, o primeiro passo é iniciar a comunicação. Por isso temos que estar sempre prontos para agir ou reagir, mas é fundamental saber em quais situações o de cima desconecta primeiro e quando o de baixo desconecta primeiro.

Presenciei este acidente, conforme vou descrever:

Depois de um salto em grupo (4-way), os paraquedistas se separaram, mas houve algum problema que levou os dois a colidir e um deles ficou embaraçado nas linhas e velame.

Sem se comunicar, o paraquedista de baixo desconectou primeiro e deixou o segundo embrulhado em meio a linhas e velame.

O paraquedista de cima desconectou após o primeiro ir embora e comandou o reserva. Porém, ele estava enrolado pelo velame e linhas do amigo, o que fez com que o container do reserva desse que ficou permanecesse fechado, mesmo após o comando. Sem conseguir abrir o seu reserva e já tendo liberado o principal, ele ficou sem nada.

Pois é, Deus é paraquedista. Um pequeno pedaço de tecido do velame do outro paraquedista, no qual o protagonista desta história ficou embrulhado, se inflou parcialmente como uma pétala de flor na lateral e provocou um giro, como aqueles folhas que descem girando igual a um helicóptero de uma pá.

Graças a esse giro, ele não teve um impacto vertical no solo. Bateu tangenciando. Embora tenha pousado no asfalto e sofrido várias lesões, o acidente não foi fatal.

QUEM DESCONECTA PRIMEIRO

Essa história que reproduzi acima serve para ilustrar que a decisão de quem desconecta primeiro depende da possibilidade de deixar o outro colega embolado em linhas e velame ou não. Esta é a razão pela qual deve haver comunicação entre os paraquedistas, e o motivo pelo qual o paraquedista de cima deve tentar se desvencilhar das linhas (do paraquedas de baixo) e desconectar primeiro em alguns caso.

Revendo as prioridades. Quem desconecta primeiro depende de uma análise da situação, entretanto na maior parte das vezes funciona assim, depois de se comunicarem:

Desligar o RSL para depois operar manualmente o reserva.

O de cima está embrulhado no velame, mas o seu velame está aberto – nesse caso o de baixo desconecta primeiro.

O de cima está entrelaçado e preso nas linhas – nesse caso, talvez seja melhor o de cima se livrar das linhas e desconectar primeiro.

Se você for o paraquedista de cima e está embrulhado no velame do paraquedista de baixo, tem uma boa chance de que o seu velame ainda esteja voando. Nesse caso em que o paraquedista de cima esteja com um velame com sustentação, mesmo que embrulhado no velame, recomendamos que o de baixo desconecte primeiro.

Se você estiver em cima e embaraçado nas linhas com o seu velame também em pane, você provavelmente está numa situação em que deverá desconectar primeiro. Estabeleça um canal de comunicação com o paraquedista de baixo e livre-se primeiro das linhas antes de desconectar.

Depois de desconectar, se tiver altura, certifique-se que está liberado de linhas e velame e comande o reserva.

AÇÕES DE PREVENÇÃO

Ter uma Hook knife

Divisão dos grupos no embarque

Distanciamento entre os grupos na saída

Plano de separação no final da queda-livre

Alturas de abertura devem ser respeitadas

Em rota de colisão (desviar)

Fazer uso da navegação preventiva

Entrar e navegar no circuito consciente e respeitando os demais em posições próximas

Manter a reta na final para o pouso

Repito, para sobreviver neste esporte é fundamental aprender a navegar na defensiva. Olhe sempre ao seu redor. Produza distanciamento vertical e horizontal de outros paraquedistas.

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