Parte 3 – Panes no Paraquedas

Emergências no Paraquedismo – Panes e Anormalidades

Antes de entrarmos na análise das situações que podem ocorrer depois do acionamento, vamos esclarecer o que significam algumas siglas e terminologias que costumamos utilizar:

IDA – Identificar, decidir, agir

Velame aberto – O paraquedas passa no cheque visual e no cheque funcional.

Pane – O velame não passa no cheque visual ou no cheque funcional. O paraquedas em pane, por definição não tem condições de pouso seguro. As panes podem ser: totais e parciais, de alta ou de baixa velocidade.

Panes totais – O container permanece fechado. Todas as panes totais são panes de alta velocidade.

Panes parciais – O container está aberto, mas o velame não está aberto. As panes parciais podem ser de alta ou de baixa velocidade.

Panes de alta velocidade – O paraquedista continua caindo na velocidade terminal ou tem apenas uma pequena redução na razão de queda devido ao arrasto ocasionado pela bolsa ou pelo velame encharutado.

Panes de baixa velocidade – As panes de baixa velocidade são aquelas que o velame está parcialmente inflado, como, por exemplo, em uma pane de line over.

Anormalidades – São situações com as quais se pode resolver ou conviver. Refere-se a elas sempre como “a princípio” uma anormalidade, pois só se considera anormalidade depois de passar no cheque funcional. A diferença entre uma pane e uma anormalidade é que nas panes não é possível pousar com o paraquedas. Numa anormalidade o velame está aberto, mas tem um pequeno problema o qual pode ser consertado ou, caso contrário, se passar no cheque funcional, pode-se conviver com o problema e pousar com segurança.

Logo após a abertura, ao constatarmos que o velame tem sustentação e está voando em linha reta (não está girando), fazemos o cheque visual, que consiste em verificar se ele está com a forma correta (alunos são ensinados a falar velame retangular), em seguida verificamos se todas as células estão infladas, linhas esticadas e desembaraçadas e slider baixo. Após o cheque visual, fazemos o cheque funcional: flare, curva para a direita e curva para a esquerda, sempre olhando para se certificar que não tem nenhum tráfego de paraquedas ao seu redor.

velame ok
Velame Aberto – Tem sustentação, está voando reto, formato retangular, células infladas, linhas esticadas e desembaraçadas, slider baixo

 

Em outras palavras, quando acionamos o paraquedas, após aproximadamente 3 segundos, fazemos o I-D-A: Idenficamos (I) visualmente se nosso paraquedas está aberto ou se temos uma anormalidade ou uma pane. Após a identificação visual devemos decidir (D) se faremos cheque funcional ou procedimento de emergência (se constatarmos visualmente que temos uma pane, fazemos o procedimento de emergência imediatamente, sem a necessidade de fazer cheque funcional). O próximo passo é agir (A), ou seja, fazer o cheque funcional ou fazer o procedimento de emergência.

Panes totais

Nas panes totais, o container está fechado. Para efeito de estudo, são panes totais as panes de operador de não conseguir acionar o punho de comando, bem como o paraquedas piloto enroscado no braço ou na perna do paraquedista ou na câmera do instrutor. Se o paraquedista experiente não conseguir lançar o pilotinho, ele poderá acionar diretamente o punho do reserva. Alunos são ensinados a fazer o procedimento de emergência completo.

Se o piloto ficar “in tow”(sendo arrastado sem extrair o pino), que também é uma pane total, não existe um consenso se o melhor procedimento é desconectar primeiro ou ir direto para o reserva, portanto a decisão fica por conta de cada paraquedista.

Pane total
Billy Weber simula uma pane de pilotinho “in tow”. O pino não foi extraído e o container está fechado.

 

Panes parciais

A ferradura é a primeira das panes parciais e é de alta velocidade, pois o container está aberto e o pilotinho está enroscado em alguma parte do corpo do paraquedista. O procedimento nesta situação é desconectar e comandar o reserva.

Bag lock (velame dentro da bolsa) e charuto são panes parciais de alta velocidade. As linhas ficam totalmente esticadas, mas o velame não se infla. O procedimento é desconectar e comandar o reserva: procedimento de emergência padrão.

Bag Lock
Bag Lock – Pane parcial de alta velocidade

 

As outras panes parciais com o velame parcialmente inflado são:

Formato não retangular. Ao fazer o cheque visual, o paraquedista constata que a forma do velame não é retangular, quadrado ou elíptico (dependendo de que tipo de paraquedas utilizado). Entre outras panes que o velame não fica na forma correta, podemos citamos a pane de line over.

Slider alto, acima da metade. Se o slider não desceu e está afetando a forma do velame, não permitindo que ele se infle totalmente, considere como sendo uma pane.

Slider alto
Slider alto

 

Mais que duas células fechadas. Mais do que duas células fechadas é pane.

Duas ou mais linhas rompidas (ou linhas direcionais). Duas ou mais linhas rompidas podem afetar o voo do velame. Trate como uma pane.

Twist abaixo de 2500 pés. Se o twist não foi solucionado até 2.500 pés, faça o procedimento de emergência.

Rasgo de mais de um metro. Rasgos podem enganar o paraquedista. Pequenos rasgos de até um metro podem ser considerados como uma anormalidade, mas se estiver em dúvida, faça o procedimento de emergência.

Rasgo
Velame com um ou mais rasgos. Na dúvida, faça o procedimento de emergência.

 

Anormalidades que não passam no cheque funcional. Ao constatar uma anormalidade no cheque visual e ao fazer o cheque funcional, o paraquedas se comporta estranhamente, fazer o procedimento de emergência.

Caso um freio esteja solto na abertura (até 2500 pés), resultando em giros e desde que 1- o velame tenha sustentação, 2- esteja no formato retangular e 3- com todas as outras células infladas, paraquedistas experientes podem desfazer o outro freio e fazer o cheque funcional. Ao voltar os batoques (ou alças direcionais) à posição normal o velame deverá parar de girar. Se após o flare o velame continuar a girar, fazer o procedimento de emergência. Se estiver em dúvida quanto a altura ou se os giros estiverem muito violentos, faça o procedimento de emergência imediatamente. Alunos em instrução devem considerar o freio solto como pane, pois não tem experiência para analisar a situação.

Em qualquer situação na abertura, se você estiver em dúvida, considere que é uma pane e faça o procedimento de emergência.

Pane é pane e pede procedimento de emergência. Não se recomenda “brigar com a pane”. Esse procedimento já demonstrou ser fatal em vários casos.

Anormalidades (minor problems)

Anormalidades são situações que o velame está retangular e que se pode (em princípio) resolver ou conviver com elas. Para caracterizar uma anormalidade, o velame tem que ter sustentação e estar voando em linha reta.

Dizemos “em princípio” uma anormalidade porque só depois do cheque visual podemos afirmar realmente se temos uma pane ou anormalidade.

São 6 situações que chamamos (em princípio) de anormalidade, sendo que 2 delas podemos resolver, 3 podemos conviver e o Twist, que discutiremos à parte.

Slider alto abaixo da metade (pode ser resolvido)

Uma ou duas (uma de cada lado) células da ponta fechadas (pode ser resolvido)

Uma linha arrebentada

Pequeno Rasgo

Paraquedas piloto passando pela frente do bordo de ataque

O twist até 2500 pés requer um tratamento especial. No twist, o velame tem sustentação e está voando em linha reta, porém as linhas estão torcidas e não permitem que o paraquedas seja manobrado.

Os procedimentos abaixo são indicados para paraquedistas que estão iniciando no esporte, mas que já deixaram o status de aluno em instrução. Alunos devem sempre agir de acordo com os ensinamentos dos seus instrutores. Variações nos procedimentos dependem do tipo de paraquedas e experiência.

Quando o slider não desce totalmente, porém, 1- o velame tem sustentação, 2- está voando em linha reta, 3- está no formato retangular e 4- com as células infladas, deve-se fazer o cheque funcional. Se passar no funcional, convive-se com a anormalidade.

Twist
O velame tem sustentação e está voando reto, o formato está retangular, as células estão infladas, porém as linhas estão torcidas, configurando “line twist”. Primeiro desfazer o twist e depois fazer o cheque funcional.

 

Se as células da ponta não se inflam, mas, 1- o velame tem sustentação, 2- está voando em linha reta, 3- está no formato retangular e 4- com todas as outras células infladas, deve-se fazer o cheque funcional. Se passar no funcional, convive-se com a anormalidade.

Em caso de pequenos rasgos e até uma linha partida, se passar no cheque visual e no cheque funcional, pode-se conviver com a anormalidade. Em caso de dúvida, faça o procedimento de emergência.

Se o paraquedas piloto (pilotinho) estiver passando pelo bordo de ataque e estiver pendurado na frente do paraquedas, desde que 1- o velame tenha sustentação, 2- esteja voando em linha reta, 3- esteja com o formato retangular e 4- com as células infladas, deve-se fazer o cheque funcional. Se passar no funcional, convive-se com a anormalidade.

Pilotinho passando pelo bordo de ataque
Pilotinho passando pelo bordo de ataque. À princípio, uma anormalidade.

 

Para desfazer um twist, mantenha os batoques alojados, separe e afaste os tirantes de sustentação da esquerda e da direita (afastar os da direita dos da esquerda). Ao mesmo tempo, pedale (ou chute) na direção contrária à torção de modo a desfazê-la. Após desfazer o twist, fazer o cheque funcional. Se a situação não estiver solucionada até 2.500 pés, fazer o procedimento de emergência.

Na continuação desta matéria falaremos sobre colisões e dois velames abertos na abertura ou durante a descida, além de outros problemas que podem acontecer durante a navegação até o pouso.

 

Se tiver dúvidas escreva para ricardo_pettena@hotmail.com que terei grande satisfação em responder.

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13 comentários Adicione o seu

  1. Francisco Carlos Fernandes disse:

    Reciclar é prevenir.

    Obrigado!

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  2. Certamente Francisco, obrigado. Espero poder contribuir com o aprendizado e reciclagem para que nosso paraquedismo se torne cada vez mais seguro. Agradeço se puder compartilhar a matéria.
    Abraços, Ricardo

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  3. Manoel Correa do Espirito Santo. disse:

    Excelente materia. Tive um twiste logo no meu primeiro salto solo. Mantive a calma e realizei o que aprendi. Foi tranquilo. Depois mais tres tbm tranquilo de resolver.

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    1. Obrigado Manoel.
      Você teve um twist no primeiro salto solo e fez o que havia sido treinado pra fazer. Muito bom. Basta manter a calma.

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  4. Marcio disse:

    passei por duas situações, já no início do curso: um line over no meu 3 salto, e um pilotinho passando pelo bordo de ataque no meu 10 salto, segui os procedimentos ensinados para cada situação e tudo ocorreu na tranquilidade.

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  5. Jota Derviche disse:

    Ricardo, seria interessante dar os créditos destas fotos das panes. Foi um árduo e cu$to$o trabalho da CBPq.

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  6. Hagner Dias disse:

    Obrigado MESTRE… relembrar e RE-treinar, é essencial… Sempre leio e procuro aprender mais… Segurança e prevenção nunca são “D+”

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    1. Obrigado Hagner! Como você bem disse, segurança e prevenção no paraquedismo são fundamentais. Grande abraço!

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  7. Evandro disse:

    Prezado, muito bom sempre falar do tema, tenho percebido um grande aumento dos saltos de bigway, modalidade da qual participo desde 2014, o que tenho percebido e que muitos estão organizando estes tipos de saltos sem se preocupar com o treinamento e capacidade dos atletas, basta verificar em alguns videos a quantidade de pessoas orbitando, passando para baixo em uma formação, ou caindo em cima de outras pessoas, sem falar nos pousos em risco, acredito que seria interessante por parte das entidades um controle mais rigido em cima destas modalidades inclusive auditando os videos destes saltos periodicamente, garantindo assim que os LOs sigam e cumpram os procedimentos de segurança, inclusive sacando dos saltos pessoas sem a devida experiência para o mesmo.

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    1. Positivo Evandro! Muito bem lembrado. Vou da essa ideia para o PEPA – Programa de Estudos e Prevenção de Acidentes do CIS que voltou a funcionar na atual gestão. Geande abraço

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  8. BRUNO MATEUS SOARES DOS SANTOS disse:

    Ricardo, matéria excelente e esclarecedora, principalmente para quem ainda é cat A. Mas não estou encontrando a parte sobre colisões e problemas da navegação até o pouso

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    1. Oi Bruno, obrigado! Eu estou terminando está matéria e vou postá-la assim que ficar pronta.
      Abraços

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