Meu Primeiro Salto de Paraquedas

Era um domingo, dia 12 de dezembro de 1971, um lindo dia de sol e ventos calmos. Eu estava lá pendurado sob um velame redondo de cor branca, laranja e marrom. O silêncio era total. Diferente dos aerofólios de hoje que tremulam e fazem barulho. A 2.000 pés eu podia avistar nitidamente o alvo onde pousaria e o meu instrutor Miro no centro dele. Eu tive um pensamento de vitória: consegui, agora não dá mais pra voltar para o avião, portanto esse salto já é meu.

Pendurado sob o velame TU-7 .


Havia sido uma luta grande para conseguir chegar até aquele momento. Tudo começou num dia frio no mês de junho de 1971. Eu perambulava pelo centro da cidade de Campinas quando me deparei com algo que mudaria a minha vida para sempre. Eu tinha apenas 12 anos de idade. Minhas principais atividades eram a escola, aulas de tênis e escotismo. Numa das esquinas de umas das ruas comerciais mais movimentadas de Campinas havia vagado um espaço e o Clube de Pára-quedismo de Campinas montou uma exposição de materiais de salto para promover a próxima turma do curso de iniciantes de paraquedismo que iria começar dentro de alguns dias.

Entrei e me apaixonei. O que era aquilo? Saltar de um avião? Eu quero. O Elias era um dos paraquedistas do Clube e estava ali para atender. Fiz perguntas. Posso fazer o curso? Quando começa? Qual é a idade mínima? Eu posso participar? Só tenho 12 anos de idade! Elias foi paciente comigo. Ele não queria dizer não para a criança cheia de entusiasmo. Sua resposta foi a seguinte: “O Miro é o instrutor do Clube. Ele estará aqui hoje à noite. Volte e traga seus pais para falar com ele”.

Fui para casa maravilhado. Vou ser paraquedista. Vou saltar de aviões. Quando cheguei em casa estavam todos à mesa prontos para almoçar. Eu contei o que tinha acontecido. Pedi aos meus pais que fossem comigo falar com o instrutor naquela noite. Eles concordaram prontamente.

E assim, como prometido, fomos todos visitar a exposição de paraquedismo. Será que o tal instrutor abriria uma exceção pra mim? Quando chegamos, o Miro estava lá. Nos atendeu prontamente e muito bem. Contou tudo sobre o paraquedismo com muita animação.

Mas pra mim só interessava saber uma coisa: eu vou ou não vou poder fazer o curso de paraquedismo? A resposta foi a seguinte: “a idade mínima para saltar é 16 anos, mas você pode acompanhar a parte teórica se quiser”. Ele permitiu com a condição de que eu seria só um ouvinte. Eu não havia entendido essa parte, ou quem sabe meu cérebro havia sido seletivo e fez de conta que não entendeu. “Está bem, estou de acordo”,  eu disse e comigo mesmo pensei: durante esse tempo eu vou aprendendo tudo e quem sabe consigo convencer o Miro a me deixar saltar.

Naquela época o curso levava dois meses. Eu assisti a todas as aulas. Fui a todas as sessões de educação física nas quintas-feiras à noite. Participei de todos os briefings às sextas-feiras à noite, aprendi a dobrar o paraquedas, participei de todas as atividades de salto, passei em todas as provas. Mas não pude saltar. Esse era o trato e era a parte eu insistia em não entender.

Não tem problema! Determinação. Outro curso começou logo em seguida. Me matriculei neste curso também. Fiz tudo novamente. Fui em todas as aulas e em todas as atividades. Desta vez tirei nota máxima em todas as provas. No dia em que todos os alunos do curso foram saltar, mais uma vez eu não pude saltar. Eu já estava há quatro meses insistindo no meu objetivo, eu queria saltar de paraquedas.

Persistência! Agora não havia outra turma começando, portando eu ia todos os dias na casa do Miro e tocava a campainha. Miro perguntava: O que você quer?  Vim ter aulas. Mas eu não tenho mais o que ensinar para você. Então deixa eu saltar. Ele respondia: “Eu não posso deixar você saltar. Você não tem a idade mínima (nessa época eu já havia feito 13 anos)”. Eu dizia: então vou continuar vindo aqui para ter aulas até você me deixar saltar.

Foi assim que na semana que antecedeu o dia 12 de dezembro de 1971 o Miro deu a notícia para os meus pais: o Caribê Lemos Monte Santo (diretor técnico da União Brasileira de Pára-quedismo) autorizou o salto. O meu pai também conseguiu uma autorização do juiz de menores, mas eles não me disseram nada. Era para ser uma surpresa.

A equipagem era demorada pois tínhamos que enfaixar os pés, colocar os booties e vestir o paraquedas dorsal (principal) e o ventral (reserva).

Estávamos no mês de dezembro de 1971 e eu aproveitava as minhas férias escolares. No domingo, dia 12 daquele mês acordei cedo, e como sempre feliz pelo fato de que iria para a área de atividades de paraquedismo, tomei o café da manhã junto com a minha família e fomos para o Aeroporto dos Amarais na cidade de Campinas. Eu desconfiava que o Miro iria permitir que eu saltasse naquele dia.

Sentado enquanto aguardava a decolagem porque o peso do equipamento era grande para um menino de 13 anos de idade.

Quando chegamos ao Campo do Amarais, o Miro já foi dizendo que eu iria na primeira decolagem e que o Abenir seria o mestre de salto lançador e o Tarcísio também faria o primeiro salto na mesma decolagem. Fiquei eufórico, finalmente havia chegado o dia que eu tanto esperava. A jornada havia sido longa até então. Eu, agora com 13 anos de idade, estava mais do que pronto para a minha aventura. Acontece que, se a minha memória não me engana, eu não considerava aquilo uma aventura. Era apenas um brinquedo. Subir no avião e descer de paraquedas. Como ir num parque de diversões, você vai na montanha russa e se diverte. Para mim, eu estava no parque, feliz da vida e sem preocupações.

Equipamento semi-automático utilizado pelo Exército Brasileiro para lançamento de tropas com reserva ventral e fita de abertura (static line).

O equipamento era semi-automático com fita de abertura e reserva ventral. Se eu tivesse uma pane não teria como desconectar e teria que abrir manualmente o reserva que ficava na frente. Nos primeiros saltos não usávamos altímetros e nem óculos, apenas um capacete.

Da esquerda para a direita: Ricardo, Abenir (com os sondas na mão) e o Tarcísio que foi o protagonista de muitas histórias sinistras no paraquedismo.

A aeronave era um Cessna 170 e levava apenas três paraquedistas. A equipagem era demorada, pois os alunos tinham que enfaixar os pés para não torcer os tornozelos no pouso e colocar os booties, que eram botas com grossas solas de borracha com o propósito de amortecer o impacto vertical dos paraquedas redondos.

O piloto Belo já nos aguardava dentro do avião PT-AFU pronto para decolar no meu primeiro salto.

Na hora do embarque todos os paraquedistas que estavam na área e mais a minha família e amigos foram até o avião. O piloto, Avelino Alves de Camargo, a quem chamávamos carinhosamente de Belo já estava embarcado, sentado e pronto. O Miro prendeu a minha fita e checou o meu equipamento pela última vez antes do embarque. Primeiro embarcou o Tarcísio, depois eu e por último o Abenir. Quando o avião deu a partida, senti o cheiro da gasolina e senti uma alegria percorrer o meu corpo. O avião taxiou até a cabeceira oposta da pista que era de terra e quando começou a correr para decolar, o Abenir disse uma frase que eu nunca iria esquecer: “agora você está entrando para o mundo da aventura”. E de fato, naquele momento eu entrava para um mundo de aventuras do qual eu nunca mais me desligaria.

O PT-AFU subiu lentamente até 2.500 pés enquanto eu olhava para fora. Naquela época decolávamos sem a porta e eu fui admirando a beleza da terra vista de uma perspectiva diferente. Quando nivelamos, o Belo fez uma reta para lançamento dos sondas. O Abenir fez correções e lançou dois por garantia. O sonda era uma fita de papel crepom com um lastro de ferro na ponta e simulava um paraquedas redondo sendo levado pelo vento. Ele era lançado sobre o alvo e nos dava a deriva do vento. A distância que o sonda deslocava era transportado para o outro lado para que pudéssemos navegar sempre no lado positivo e no eixo do vento. Observamos até que eles tocaram o solo. O Belo fez mais uma volta e o Abenir anunciou: está na reta. Estava chegando o momento mais esperado por mim nos últimos cinco meses.

Toda aquele esforço, toda a expectativa, parecia que estavam represados e prestes a romper dentro de alguns segundos. O P.S. – Ponto de Saída era sobre o trevo da Rodovia Dom Pedro. O Belo cortou o motor do Cessna, o meu lançador disse para eu sentar na porta e eu prontamente coloquei os pés para fora. Senti a força do vento, me ajustei para ficar numa posição confortável de saída. Ele pediu para eu colocar as duas mãos sobre o reserva – era essa a chamada posição banana – e ele disse então: “pode ir”. Eu selei (arqueei a coluna) e escorreguei da porta. Senti meu corpo caindo no espaço e comecei a contagem. Logo em seguida já experimentei a tração da fita de abertura (static line) puxando o meu paraquedas de dentro da bolsa.

Olhei para cima e vi o velame aberto. Lá estava eu pendurado sob um velame redondo de cor branca, laranja e marrom. O silêncio era total. Diferente dos aerofólios de hoje que tremulam e fazem barulho. A 2.000 pés eu podia avistar nitidamente o alvo onde pousaria e o meu instrutor Miro no centro dele. Eu tive um pensamento de vitória: consegui, agora não dá mais pra voltar para o avião, portanto esse salto já é meu.

O vento era fraco, o paraquedas redondo tinha poucos recursos de dirigibilidade e navegação se comparado com os atuais velames retangulares. O rádio terra-aluno só começou a ser usado no Brasil mais de 10 anos depois quando nós introduzimos o salto com paraquedas retangulares para aluno na Escola Azul do Vento, portanto a comunicação se valia de um método bem rudimentar. O instrutor acenava com uma bandeira quando queria que o aluno fizesse uma curva de noventa graus para a esquerda ou para a direita. O problema era quando você ficava de costas para o alvo sem contato visual, mas funcionava bem se o aluno não sofresse de miopia.

Primeiro salto em 12 de dezembro de 1971 – Aeroporto dos Amarais em Campinas

Apesar do sistema de comunicação por bandeiras ser um bom meio auxiliar, após os 5 meses de cursos e vivência em atividades de paraquedismo, eu tinha total compreensão da navegação e teria feito tudo sozinho mesmo sem a sinalização. Na época usávamos um conceito muito claro e simples chamado cone do vento. O cone imaginário tinha a base na altura de abertura e se estreitava, sendo que a ponta ficava bem  no centro do alvo. Bastava permanecer dentro do cone para atingir o alvo.

Naveguei com calma obedecendo aos comandos até ficar sobre o alvo de areia e virei de vento de nariz  quando, a aproximadamente uns 20 metros de altura o Miro gritou “fecha as pernas e prepara para o rolamento”, o que prontamente obedeci. O rolamento era uma manobra que naquele tempo era praticada extensivamente até que o aluno saltasse de cima de uma plataforma de um metro e vinte centenas de vezes, tanto de frente, de ambos os lados e de costas, e sem cometer erros. Só então era considerado apto para o salto. Ele visava distribuir o impacto com o solo em 5 pontos do corpo e minimizava a possibilidade de fraturas.

Meu pai ajudando na recuperação do paraquedas após o salto

Me preparei e fiz um rolamento perfeito. Levantei rapidamente e fui cercado e abraçado pelos meus pais que estavam felizes ao me ver de volta ao solo após um salto sem nenhum problema. Depois foi a vez do instrutor que também estava aliviado ao ver que tudo tinha dado certo, afinal a responsabilidade dele era grande ao permitir o lançamento de um aluno paraquedista de 13 anos de idade. Naquele mesmo dia fiz o meu segundo salto que também foi perfeito. E essa foi a história de amor a primeira vista com um esporte que seria a minha paixão pela vida toda. Hoje, após 47 anos só posso dizer que ele me proporcionou todas as emoções de um grande amor.

25 comentários Adicione o seu

  1. Fabia Bezerra Yves disse:

    Inspirador!!!!!

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    1. Adeliani disse:

      Eu lembro quando você veio para Fortaleza. Eu achava lindo ver a sua concentração preparando o seu paraquedas antes de subir no avião. Quando você terminou eu disse que achei legal e você me disse que era muito importante o correto preparo do paraquedas para a segurança do paraquedista. Me disse que gostava de fazer isso você mesmo.
      Eu subi no avião e te vi saltar. Outras vezes te via chegando no solo. Era lindo! Parabéns Ricardo Pettená. Achei linda a história do seu primeiro salto. Emocionante!

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      1. Oi Adeliani, obrigado por relembrar. Fortaleza foi um evento que marcou.

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  2. Emanuel disse:

    Excelente professor!
    Cada um de nós temos um pouco da sua história nas nossas histórias!!!

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  3. sombra disse:

    parceiro de várias batalhas.voce eo Mito do esporte. Parabéns sou seu fã

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    1. Sombra, meu amigo e companheiro de batalhas no mundo todo, muito obrigado!

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  4. Olga Paschoal disse:

    Grande e querido Ricardo, que história mais bonita e cheia de paixão! Tive o prazer de ver vc saltar naquele campeonato em Casa Branca, lembra? Foi há tanto tempo! Bjo

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    1. Oi Olga, que bom, obrigado! Bela lembrança de Casa Branca. Você tem alguma foto daquele campeonato? Beijos

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  5. aldemarvieira disse:

    Maravilha, quem me dera ter realizado o mesmo feito….parabéns…

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  6. Regina disse:

    Texto lindo Ri parabéns nosso paraquedista preferido😘

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    1. Heloisa Luna disse:

      Quantas vezes fui ver você saltar em Peruíbe, continue lutando. Bjo grande

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      1. Heloisa, era muito bom saltar nas praias de Peruíbe. Saudade

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  7. Samuel Almeida de Souza disse:

    Um verdadeiro deleite ter a oportunidade de ler um texto que fala sobre o primeiro salto de um dos maiores mestres do paraquedismo brasileiro.
    Parabéns.
    Ok, Hey,Howwww!

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    1. Obrigado Samuel, fico feliz ao ler o seu comentário. Desejo a você bons voos. Grande abraço

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  8. Carnaúba disse:

    Muito legal Ricardo. Comparando ao meu primeiro salto como seu aluno vejo como as coisas hoje são bem mais fáceis!

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    1. Carnaúba, você é um multiatleta guerreiro e protagonista de muitas histórias neste esporte. Abraços

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  9. armando disse:

    Que historia de amor, muito bom Ricardo!!!

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    1. Pois é Armando, depois que comecei, não consegui mais parar! Obrigado, um abraço.

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  10. Excelente coletânea de boas lembranças. Entre tantas outras me lembra casa Branca com dois fatos: aquela foto feita tendo um Bandeirantes da FAB como fundo e o pessoal fazendo o famoso “lelé” salto que fiz com seu paraquedas e as tentativas de formação da estrela de velocidade de oito, com excelentes. Paraquedistas . Tinha o nome carinhoso de “Trivelato” dado pelo. Facco. Continue mantendo sempre a frente o nome da família Petena. Que é um símbolo para o paraquedismo desportivo nacional. Abraços mim

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    1. Obrigado meu amigo! Realmente são boas lembranças. Grande abraço.

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  11. Soraya disse:

    Q linda lembrança, Ricardo!

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